
Fabio Haag está em Londres, para um treinamento de dois meses na Dalton Maag. De volta ao Brasil, Fabio atuará como typedesigner e representante da DM, prospectando novos clientes na América do Sul. Por conta disso, fizemos algumas perguntas ao Bruno Maag, diretor administrativo da DM:
TPC › O que faz a Dalton Maag considerar a América do Sul um mercado emergente? Para vocês, quais são os outros mercados emergentes?
Bruno › Como economia, o Brasil está entre as que crescem mais rápido. Isto certamente afetará a indústria do design, enquanto as empresas brasileiras se expandem e se tornam mais sensíveis às marcas. Para as empresas brasileiras competirem nos mercados americano e europeu, elas também terão que assegurar que a sua apresentação visual possua qualidade tão alta quanto as das nações industrializadas. Essa expansão traz também uma maior preocupação quanto a questões de direitos autorais e registro de marca. Isto, por outro lado, estimula mais pessoas de indústrias criativas a serem criativas sem o medo de serem plagiadas.
Nós também estamos investigando possibilidades na Ásia, especialmente na Índia assim como no mundo Árabe. Eu acredito que no futuro haverá uma grande demanda por fontes não-latinas complexas, isto é, uma vez que a expansão econômica exige identidades visuais mais aprimoradas.
TPC › Como vocês da Dalton Maag se mantêm atualizados em relação às novas tecnologias de fonte?
Bruno › Meus colegas técnicos estão em vários fóruns de tecnologia e nós também temos um engenheiro de software dedicado que sempre nos mantém informados com as últimas atualizações da Microsoft e Adobe. Você pode sentir falta da Apple aqui, mas eu sinto que a Apple se tornou uma preocupação menor e ninguém mais está criando fontes especificamente para Mac. É claro que nós mesmos estamos constantemente buscando inovar e potencialmente criar novas tecnologias.
TPC › Você me disse uma vez (corrija-me se eu estiver errado) que a Dalton Maag só trabalhava com fontes corporativas. Sendo assim, o que fez vocês começarem a trabalhar com “fontes de varejo”? E quanto elas representam no faturamento total da Dalton Maag?
Bruno › Sim, você está correto. A Dalton Maag de fato começou projetando somente fontes corporativas. Este é ainda nosso negócio principal. Entretanto, nós percebemos que existe um mercado para modificar fontes exisitentes (claro que somente com as permissões e licenças apropriadas). Criar nossa biblioteca de fontes nos permite explorar estes projetos não apenas com vendas simples mas para criar modificações também. Como elas são nossa Propriedade Intelectual, temos total liberdade nas permissões e planos de licença.
A biblioteca de fontes de varejo representa hoje aproximadamente 10% do total. Isto pode parecer muito dinheiro, mas não se engane. O custo para se criar uma fonte é alto e geralmente apenas uma pequena porcentagem das fontes de varejo realmente vende bem. Você precisa acreditar nisso para dar suporte à expansão com outras fontes menos comerciais.
TPC › Aqui no Brasil estamos discutindo a criação de uma associação tipográfica nacional. Como ex-presidente do Typographic Circle, você pode nos falar sobre esta organização britânica e sua experiência com associações de tipografia em geral? Que diferença elas fazem para o seu trabalho?
Bruno › O que eu percebi é que é difícil manter uma organização a nível nacional. Nós só conseguimos administrar isso em Londres, e já foi complicado o suficiente. O Typo Circle é uma associação voluntária, o que significa que é preciso ter um núcleo de pessoas dedicadas que organiza tudo, de palestras a eventos socias.
Nos últimos 10 anos, o Typo Circle conseguiu aumentar a consciência quanto à boa tipografia, e fazer da tipografia uma questão mais importante. Contamos agora com mais de 100 pessoas em média nas palestras. Entretanto, nós sempre sentimos que é importante que o TC seja um espaço social onde seus membros possam trocar contatos, ou apenas se divertir e falar sobre tipos. É aí que está o verdadeiro valor.
Minha sugestão é que vocês podem ter uma organização nacional que funcione como guarda-chuva, mas muito se organiza localmente. Não se esqueçam também que tipo/tipografia é basicamente do interesse de uma minoria, então vocês terão que se organizar num sistema de filiação.
Ser presidente do TC, basicamente influiu nas minhas relações públicas, pois pude me expor e a minha empresa. Não estou tão seguro se isto teve algum impacto financeiro real.
TPC › O que fez você selecionar um profissional brasileiro para integrar sua equipe? Existe algo que queira dizer aos estudantes que pretendem trabalhar e possivelmente viver de desenho de tipos?
Bruno › Se eu quiser levar a Dalton Maag para o Brasil como uma empresa de tipografia a ser visitada pelos designers, isso só será possível tendo uma presença física aí. Esta é uma das razões pela qual eu convidei o Fábio Haag para se juntar à nossa equipe. Ele vai nos ajudar a promover e ampliar nosso negócio, assim como realizar trabalhos de projeto e produção.
Eu não sei exatamente o que dizer aos estudantes – tipografia não remunera, talvez. Sim, eu consegui fazer meu negócio funcionar, mas isso é difícil. Tipografia é um item de luxo e mesmo as grandes empresas não investem seu dinheiro facilmente. Não basta ser um bom designer. Você também tem que ser uma bom vendedor e entender profundamente a tecnologia. Não adianta ser capaz de projetar uma boa fonte se você não pode fazê-la funcionar ou oferecer assistência aos seus clientes.
TPC › Bruno, você ainda dedica todo seu tempo aos negócios de tipografia ou conseguiu voltar a desenhar tipos?
Bruno › Sinto dizer que hoje sou um administrador em tempo integral. Apenas ocasionalmente consigo colocar a mão na massa. Faço questão de estar envolvido nas etapas iniciais de todos os projetos de tipografia porque eu quero ter certeza de que nós criamos apenas as melhores idéias. Eu também me certifico de observar a maioria dos projetos que deixam o escritório, novamente, simplesmente por uma questão de controle de qualidade. Leva-se dez anos para se construir uma reputação e apenas dez segundos para destruí-la.
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Por Henrique Nardi
22/04/08 • Permalink •
[português]


Abril 23rd, 2008 at 4:26 am
Entrevista fantástica. Parabéns, entrevistadores, miraram muito bem o olho das questões.
Abril 23rd, 2008 at 10:23 am
Parabéns Henrique!
A entrevista foi muito bem elaborada e o blog está muito legal.
Vida longa ao blog!